EXPERIÊNCIAS

Meninas indígenas em situação de risco  

 

Iniciativas como a da Visitadoria de Santa Teresinha, em Manaus, trazem luz e esperança para a triste situação em que se encontra boa parte das mulheres índias em nosso país.

Maria Carmelita Conceição

Em uma sociedade patriarcal, as mulheres estão mais expostas à exploração sexual do que os homens, já que esta é uma das formas de manifestação da dominação. A prostituição de mulheres é outra face grave da dominação masculina. Infelizmente, uma realidade em todo o mundo. As mulheres indígenas, portanto, sofrem tripla marginalização: por serem do sexo feminino, índias e pobres. Com essas palavras, Perla López Meza-Verônica Villalba Morales denuncia em sua obra - Prostituição das meninas indígenas: até quando o desamparo? - a situação em que se encontram as meninas indígenas do Paraguai. O jornalista Gilberto Dimenstein, em seu livro "Democracia em Pedaços - Direitos Humanos no Brasil", trata da questão dos direitos humanos e, ao se referir à agressão sexual contra mulheres indígenas, demonstra a degradação das culturas indígenas com a entrada do homem branco, que por causa do garimpo e extração de madeira das áreas indígenas, utiliza-se da força ou de alimentos para obter favores sexuais das índias.

 

Essa realidade, que pode parecer distante, toma cores bem reais quando se vive em uma região onde 90% da população é indígena. Falar da situação de risco em que vivem meninas indígenas é reconhecer que o progresso traz conforto e comodidade sim, mas também conseqüências que atingem com mais intensidade os mais fracos, que menos condições têm de se prevenir contra seus efeitos negativos.

 

Em muitas culturas indígenas, a mulher ocupa o lugar de geradora e protetora da vida da família. Seu trabalho pesado, constante, silencioso, garante o cuidado e o alimento diário, representado pelo fogo sempre aceso no inte­rior da oca. Seu pensamento, em surdina, contribui discreta e decisivamente nas posições do marido. Fora desse contexto, a mulher indígena é vista como beleza exótica, sedutora, ilustrando as propagandas de turismo ecológico, atraindo turistas. Porém, a realidade é mais dura, quando o sustento da família já não vem mais da roça e as exigências são outras, ditadas pelo consumismo.

 

Maiores riscos

 

As pesquisas indicam que o crescimento das cidades provoca a concentração populacional nas regiões de maior oferta de emprego: famílias migram do interior para a capital. Surgem novas tecnologias, aumenta o número de pessoas desempregadas, cresce a miséria, criminalidade, violência e o acirramento dos conflitos familiares. A maio­ria das meninas atendidas nas casas de apoio são adolescentes vítimas de espancamentos, violações e fugas de casa.


Os dados sobre a sexualidade mostram a dramática situação em que muitas são estupradas, engravidam, abortam. Em alguns casos, o caminho para a prostituição começa em casa, no abuso sexual. Meninas e meninos são molestados por parentes próximos, diferentes membros da família, que os obrigam ao silêncio através de pressões ou suborno com presentes. As situações de risco são freqüentes e vão desde o aliciamento e pornografia, o estupro, a homossexualidade, a corrupção de menores, chegando à exploração comer­cial.  Esses dados revelam o grau da desestruturação moral da família, agravada pela falta de condições materiais, mas gerada por antivalores sociais que legitimam a agressão sexual contra a mulher.

 

O que já se faz

 

Um trabalho especificamente com as meninas indígenas em situação de risco é feito em São Gabriel da Cachoeira, Amazonas, pelas FMA da Visitadoria Santa Teresinha, na Casa Kunhantãi Uka Suri, que em língua nhengatu quer dizer 'Casa da Menina Feliz'. A entidade oferece atendimento sócio-educativo em meio aberto e ações complementares à escola através de atividades como artesanato em tucum, arumã e molongó, montagem de bijouteria com sementes, crochê, bordado, tapeçaria, corte-costura, datilografia, acompanhamento escolar, aprendizado de línguas indígenas, teatro, danças tradicionais das várias etnias, canto, terapias grupais, atendimento psicológico individual e visitas domiciliares às famílias. As atividades duram seis meses e a menina pode escolher mais de uma.

 

As freqüentes denúncias não são suficientes para interromper a rede que cada vez se estende mais, impedindo-as de ter esperança no futuro. É preciso oferecer-lhes opções de partilhar com outras meninas. A heterogeneidade tem aspectos positivos, pois gera solidariedade entre elas. É preciso dar-lhes oportunidade de partilhar suas dores e acreditar em um futuro melhor, com mais dignidade e qualidade de vida.

Maria Carmelita Conceição é irmã FMA de Manaus, AM.
insieme@auxiliadora.g12.br

Entrevista com a irmã Maria Lúcia Barreto, atual

O que levou a Visitadoria a pensar nessa obra?

A escuta atenta da rea­li­dade nos fez ouvir o grito angustiante de muitas meninas, famí­lias desestruturadas, desenraizadas, vindas de povoados e distritos em busca de estudo e trabalho.

 

Como tem sido a experiência?

Diversificada. Nos primeiros anos, acolhemos as meninas e as jovens num ambiente físico não muito favorável: pouco espaço, escassos recursos econômicos. Já no começo de 2004, a comunidade da Casa Irmã Inês Penha foi transferida para um ambiente maior que, sem dúvida, oferecerá melhores condições de acolhida, acompanhamento, promoção das meninas, jovens e suas famílias.

 

Quais são os maiores desafios?

Contribuir no dia-a-dia para que a obra seja, de fato, uma expressão concreta do seu nome, Kunhantãi Uka Suri, que significa "casa da menina feliz". Também queremos a valorização dos elementos culturais diversificados na região e a auto-sustentação e geração de renda para muitas famílias envolvidas no projeto.

 

Que sinais de esperança a senhora vê para as meninas de São Gabriel da Cachoeira ?

A auto-estima e valorização pessoal, restituindo-lhes o gosto por uma vida digna; a descoberta, o assumir a riqueza de suas culturas; e o conhecimento de seus direitos e deveres como mulheres chamadas a contribuir para uma sociedade mais humana e responsável.
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