MISSÕES
Os mártires de Meruri

A comunidade salesiana da Aldeia Meruri, na Inspetoria de Mato Grosso, celebrou o trigésimo aniversário do martírio de padre Rodolfo Lunkenbein "Koge Ekureu" e do indígena Bororo Simão Cristino "Koge Ekudugodu" com a realização do I Seminário de História Bororo para Bororo. O seminário aconteceu de 25 a 28 de setembro, com o tema "O Lugar da História Bororo na História".

As palestras e outras atividades foram abertas a toda a comunidade indígena e trataram da história mítica, história antes e depois do contato, questão fundiária e imaginário Bororo, entre outros temas. Foram desenvolvidas por especialistas no assunto, como as professoras doutoras Renate Brigitte Viertler (USP), Edir Pina de Barros (UFMT), Aivone Carvalho (UCDB) e Dulcília Silva (UCDB); padre Gonçalo Ochoa Camargo (perito em Cultura Bororo); mestre Mário Bordignon (historiador) e anciãos indígenas.

Na manhã de 29 de setembro, dom Protógenes José Luft, bispo diocesano de Barra das Garças, MT, presidiu uma missa celebrada debaixo da velha mangueira, testemunha do martírio. Concelebraram dom Bruno Pedron, bispo de Jardim, MS, e antigo diretor da missão de Meruri; padre Filiberto Rodríguez, conselheiro geral da Região Salesiana Europa Oeste, e inúmeros sacerdotes da região. Participaram religiosos e religiosas, os povos indígenas Bororo e Xavante, leigos e leigas.

Alguns momentos da missa, como a acolhida e o ofertório, foram inculturados, com danças e cantos Bororo. Foram marcantes a homilia feita pelo padre Ochoa, testemunha ocular do violento acontecimento, os testemunhos dos Bororo feridos naquele dia e o relato da irmã Maria Aparecida Zepherino, FMA, que acompanhou o profundo espírito cristão de Simão Cristino nos instantes finais de sua vida.

Na ação de graças, os jovens Bororo fizeram apresentações culturais tradicionais e modernas. A celebração foi encerrada com uma peregrinação até o cemitério, onde um ancião Bororo entoou um canto fúnebre e dom Protógenes rezou diante dos túmulos.


Aliança de sangue


A celebração fez memória ao dia 15 de julho de 1976, quando o missionário salesiano padre Rodolfo Lunkenbein morreu em defesa dos Bororo e o Bororo Simão Cristino ofereceu sua vida em defesa do missionário, numa aliança de sangue.

Quatro outros Bororo foram baleados naquele triste dia: José Rodrigues Boiadowu, Gabriel dos Santos Bakoro Kudu, Lourenço Rondon e Tereza Bororo, mãe de Simão Cristino. Um grande temor tomou conta de todos. Porém, aquilo que deveria ser o fim da esperança foi, pelo contrário, o início de uma nova e promissora etapa.

A reserva foi demarcada no mesmo ano e todos os ocupantes não índios abandonaram a área. Hoje, um território de 82 mil hectares, devidamente homologado e registrado, é somente dos Bororo. E a missão salesiana continua com o seu trabalho muito bem aceito por eles.

O povo Bororo tem dado passos importantes para a sua autonomia. A começar pela consciência de maior organização e união no enfrentamento dos problemas. Já são 12 os professores diplomados com curso superior, três deles formados pela Universidade Católica Dom Bosco (UCDB). A implantação do Ensino Médio está encaminhada de modo específico e diferenciado.

Há uma maior consciência também sobre a legislação indígena, um melhor aproveitamento da terra e o fortalecimento da cultura. A população está aumentando e o alcoolismo tem diminuído entre os jovens. Um bom número de pessoas, sobretudo jovens, está assumindo compromissos com a fé católica, através da participação em pastorais e grupos de ação eclesial.

O povo Bororo, que quase foi extinto, hoje demonstra sinais de auto-estima, de valorização comunitária e de vontade de construir a sua própria história. Problemas sérios existem, mas são enfrentados de um modo totalmente novo.

Nós, salesianos desta comunidade, percebemos tudo isso e rendemos graças a Deus. Acreditamos que o sangue derramado por padre Rodolfo foi um ato de grande generosidade, foi o coroa-mento de uma vida consagrada a Deus no serviço ao povo Bororo. Deus quis usar esta doação para trazer a salvação, histórica e concreta, de um povo condenado ao desaparecimento.

A comunidade salesiana de Meruri busca o apoio de todos para que seja introduzida a causa de canonização pelo martírio de padre Rodolfo e de Simão Bororo. A introdução da causa de santidade desses irmãos traria a vivência de um tempo forte de espiritualidade e animação eclesial, despertando novos ideais cristãos nos nossos jovens. Que a intercessão de Maria Auxiliadora, de São João Bosco e dos outros irmãos que já tiveram sua santidade comprovada contribua para que sejam elevados às honras dos altares.


Padre Eloir Inácio de Oliveira

A missa foi celebrada embaixo da velha mangueira da missão, local em que padre Rodolfo foi morto